10.24
Umbigo Sem Fundo é uma (grande) amostra da genialidade de Dash Shaw, que, com meros 23 anos, deu cria a uma das graphic novels mais complexas, instigantes e brilhantes desta década – quiçá da história dos quadrinhos.
David e Maggie, os patriarcas da família Loony, após quarentas anos de casório e três filhos, decidem se divorciar, alegando, laconicamente, que simplesmente não se amam mais, o que impele a uma última reunião familiar; Dennis, o filho mais velho, recebe a notícia com espanto e indignação, tornando-se obcecado em entender os motivos para a separação, contrastando com a aparente apatia com que Claire - a filha do meio, divorciada e com uma filha à beira da adolescência – e Peter, o caçula, reagem ao fato.
Ao longo das 720 páginas que constituem a HQ (como eu disse, grande amostra), Shaw disseca a dinâmica familiar dos Loony, explorando como essa ruptura abrupta no gênesis familiar repercute em cada um dos seus membros e como a situação obriga os personagens a lidarem com os seus próprios traumas e temores.
Para esse fim, Shaw recorre a recursos estéticos peculiares aos quadrinhos, explorando todas as possibilidades narrativas que o gênero oferece, como uma diagramação “orgânica” que se molda às exigências dramáticas das cena; painéis que se mergem para representar ações contínuas; onomatopéias que, ao invés de representarem sons abstratos, têm finalidades descriticas etc.
O seu domínio precoce na técnica e na forma de se fazer quadrinhos remete de certa forma ao mestre Alan Moore, que também inovou a linguagem do meio através de Watchmen. É possível inclusive traçar certas influências, como a utilização, em ambas as obras, de excertos de jornais/diários, visando a transmitir informações ao leitor que não poderiam ser obtidas de outra maneira.
No Brasil, a publicação do título pela Quadrinhos na Cia coincidiu com a vinda do autor ao país, que marcou presença tanto na XIV Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, quanto numa sessão de autógrafos e bate-papo em São Paulo, acompanhado pelos gêmeos Gabriela Bá e Fábio Moon.






