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	<title>O Neuromancista &#187; Literatura</title>
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	<description>O blog no fim do Universo.</description>
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		<title>Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (Philip K. Dick)</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 22:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Philip K. Dick, além de um dos melhores escritores que a ficção-científica já teve, foi um visionário, alguém capaz de antever muitas das chagas que assolariam o mundo contemporâneo. Suas obras ganham ressonância com o passar do tempo, pois os temas com os quais lidam se revelam cada vez mais caros a nós &#8211; como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/TheThreeStigmataOfPalmerEldritch1stEd.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4944" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/TheThreeStigmataOfPalmerEldritch1stEd.jpg" alt="" width="289" height="443" /></a> Philip K. Dick</strong>, além de um dos melhores escritores que a ficção-científica já teve, foi um visionário, alguém capaz de antever muitas das chagas que assolariam o mundo contemporâneo. Suas obras ganham ressonância com o passar do tempo, pois os temas com os quais lidam se revelam cada vez mais caros a nós &#8211; como é o caso deste <em><strong>Os Três Estigmas de Palmer Eldritch</strong></em>.</p>
<p>Num futuro não-tão-distante, a Terra se tornou um planeta semi-inóspito, afligido por um superaquecimento que tornou a sua habitação possível apenas em ambientes fechados e refrigerados (i.e <em>condaptos</em>), extinguiu boa parte da vida animal e tornou os pólos em <em>resorts</em> para os mais abastados.</p>
<p>A solução encontrada pela ONU &#8211; que emergiu como a força política mais apta para lidar com a situação, sobrepujando soberanias nacionais &#8211; para lidar com o contigente sem condições de arcar com <em>condaptos</em> apropriados foi conduzir exílios (forçados) para outros planetas do sistema solar, em que as condições de vida são tão ou mais degradantes.</p>
<p>Nesse contexto, a <strong>Ambientes P.I</strong> prospera. A empresa é especializada na fabricação de brinquedos que, aliados a uma droga alucinógena chamada <em>Can-D</em>, também produzida &#8211; clandestinamente, mas com autorização tática da ONU &#8211; por ela, permite aos seus usuários imergirem num mundo ilusório, fantástico e compartilhado.<span id="more-4914"></span></p>
<p>Os colonos, desesperados por um entretenimento escapista capaz de aliená-los da realidade insalubre em que se encontram, recebem-na entusiasmadamente, que lhes permite desfrutar uma vida de luxos e soberba numa Terra remota e há muito inexistente, suscitando uma devoção quase religiosa em torno da droga e a experiência que ela proporciona.</p>
<blockquote><p>Already Sam Regan could feel the power of the drug wearing off; he felt  weak and afraid and bitterly sickened at the realisation. So goddam  soon, he said to himself. All over; back to the hovel, to the pit in  which we twist and cringe like worms in a paper bag, huddled away from  the daylight. Pale and white and awful. He shuddered.</p></blockquote>
<p>Quando o industrialista, há muito dado como morto, Palmer Eldritch retorna de uma longa viagem sideral, ele traz consigo uma nova substância &#8211; nomeada <em>Chew-Z</em> &#8211; capaz de produzir um efeito ainda mais vívido e intenso que a <em>Can-D</em>, com os agravantes de ser desprovida de efeitos colaterais e sancionada pela própria ONU, incitando uma guerra industrial entre Leo Bulero (CEO da Ambientes P.I) e o excêntrico magnata.</p>
<p>Mas por trás desse aparente conflito de egos, jaz um embate muito mais profundo, através do qual Dick explora questões de ordem metafísica e teológica de forma hipnotizante, tornando inteligíveis para o leitor tópicos concernentes à filosofia e à ontologia, conduzindo a um questionamento da própria realidade (algo de praxe em suas obras).</p>
<p>Conforme o romance se desdobra, as fronteiras entre o real e o imaginário, o vivido e o alucinado, tornam-se mais e mais porosas, obrigando o leitor a encarar tudo que lê com ceticismo e, uma vez com nossas certezas debilitadas, Dick nos incita a refletir sobre livre-arbítrio, destino, a natureza do divino e da realidade, compartilhando conosco muitas de suas próprias aflições existenciais.</p>
<p>Embora publicado 45 anos atrás, <em><strong>Os Três Estigmas de Palmer Eldritch </strong></em>dá margem a diversas interpretações, sendo impossível, na conjuntura em que vivemos, não relacionaar às drogas recreativas e seus mundos de faz-de-conta compartilhados com a internet, a realidade virtual, reality shows&#8230;</p>
<p>As questões em voga na nossa sociedade tiveram suas raízes sociais e antropológicas percebidas e examinadas com bastante maturidade e perspicácia por Dick &#8211; que, não à toa, considera este livro o mais vital de sua carreira. No Brasil o título foi publicado pela Aleph, com tradução da competente Ludmila Hashimoto, bastante versada na literatura dickiniana.</p>
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		<title>Ubik (Philip K. Dick)</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 05:42:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[metafísica]]></category>
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		<description><![CDATA[Escrito em 1966 e publicado três anos depois, esta obra talvez figure entre as mais acessíveis do escritor Philip K. Dick. Suas divagações teológicas e existencialistas habituais ganham forma numa narrativa que privilegia o suspense, descrita pelo escritor e crítico literário Lev Grossman como uma história de horror profundamente inquietante, um pesadelo do qual você [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/Ubik.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4956" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/Ubik.jpg" alt="" width="220" height="329" /></a>Escrito em 1966 e publicado três anos depois, esta obra talvez figure entre as mais acessíveis do escritor <strong>Philip K. Dick</strong>. Suas divagações teológicas e existencialistas habituais ganham forma numa narrativa que privilegia o suspense, descrita pelo escritor e crítico literário Lev Grossman como <em>uma história de horror profundamente inquietante, um pesadelo do qual você nunca terá certeza se acordou ou não</em>. Em 2005, foi eleito pela a revista <em>Times </em>como um dos cem melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923.</p>
<p>No universo de <em><strong>Ubik</strong></em>, existem dois tipos de indivíduos extraordinários: aqueles dotados de poderes paranormais, como telepatas e precogs, cujos talentos são usados para fins de espionagem e sabotagem industrial; e os <em>inerciais</em>, que detectam e inibem tais talentos, contanto que correspondentes (i.e um anti-telepata só afeta as habilidades de um telepata, não de um precog), empregados pelas <em>organizações de prudência</em>, que oferecem segurança anti-psis aos seus clientes.</p>
<p>Nesse contexto, a Runciter &amp; Associados, a maior organização de prudência do ramo, é contratada por um rico magnata que afirma que seu empreendimento sigiloso na Lua foi infiltrado por inúmeros psíquicos -- o que explicaria o sumiço abrupto de muitos desses indivíduos em tempos recentes, impelindo Glen Runciter a reunir os melhores de sua equipe e a liderar ele mesmo a missão.</p>
<p>Tal missão, todavia, era uma armadilha. Runciter acaba morto, enquanto que seus onze subalternos sobrevivem. Doravante, o romance envereda pelo território da metafísica dickiniana: os sobreviventes passam a experimentar regressões temporais.</p>
<p>Objetos, construções, utensílios, vestiário, enfim, a realidade como um todo retrocede no tempo. Televisores se tornam rádios, aviões em biplanares, alimentos novos em produtos há muito estragados. E somente eles observam/experimentam tais fenômenos (os quais não ocorrem simultaneamente, nem mesmo entre eles).<span id="more-4939"></span></p>
<blockquote><p>Prior forms, he reflected, must carry on an invisible, residual life in  every object. The past is latent, is submerged, but still there, capable  of rising to the surface once the later imprinting unfortunately -- and  against ordinary experience -- vanishes. The man contains -- not the boy --  but earlier men, he thought. History began a long time ago.</p></blockquote>
<p>Esta regressão cessa na década de 30, não sem antesalgumas fatalidades: o fluxo retrocedente do tempo também aparenta consumir/afetar os sobreviventes, a uns mais rápidos do que a outros, mas com o mesmo desfecho: óbito. Os cadáveres se apresentam sempre em avançados estágios de decomposição, como se os indivíduos há muito tivessem falecido. Porém, indo de encontro a essa força, está&#8230; Glen Runciter, comunicando-se dos mortos.</p>
<p>Os profundas questionamentos de <strong>Philip K. Dick</strong> sobre a natureza a realidade são, aqui, manifestados de forma palpável para os personagens, adquirindo uma função narrativa e um protagonismo dentro da história (similar, <em>e.g</em>, ao papel que a ilha exerce em <em>Lost)</em>. Os personagens -- e, por tabela, o leitor -- veem-se num vaivém entre realidades díspares, uma justaposição metafísica que realça a fragilidade na concepção de realidade tal como Dick a entendia.</p>
<p>Ubik, a palavra, deriva do grego <em>ubiquitous</em>, que significa onipresente. No romance cada capítulo abre com o anúncio publicitário de um produto dessarte nomeado, desde produtos de limpeza a itens alimentícios. A razão disso, assim como a finalidade e natureza desses &#8220;ubiks&#8221;, só é elucidada nos capítulos finais. Até lá, entretanto, é impossível resistir à tentação de tentar decifrar essas incógnitas por nós mesmos, incorporando-as à experiência de leitura.</p>
<p>Encerro a resenha ao som da banda de rock instrumental <strong>Secret Chiefs 3</strong>, cujo subgrupo <em>The Electromagnetic Azoth</em> homenagenou a obra no single<em> UBIK</em>, lançado em 2007.</p>
<p style="text-align: center"><span class="youtube">
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		<title>O Complexo de Portnoy (Philip Roth)</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Jul 2010 11:20:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Complexo de Portnoy foi a minha terceira incursão na bibliografia de Roth, a primeira num dos seus romances celebrados (tanto Indignação quanto Homem Comum são títulos menores, coadjuvantes na sua bibliografia), e, sem dúvida, a melhor. Neste romance &#8211; que lançou o autor à fama literária &#8211; o leitor assume a perspectiva do interlocutor, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong> <a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/PORTNOY.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4908" title="PORTNOY" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2010/07/PORTNOY.jpg" alt="" width="316" height="484" /></a> O Complexo de Portnoy</strong></em> foi a minha terceira incursão na bibliografia de Roth, a primeira num dos seus romances celebrados (tanto<em><strong> Indignação</strong></em> quanto <em><strong><a href="../2009/11/28/homem-comum-philip-roth/" target="_blank">Homem Comum</a></strong></em> são títulos menores, coadjuvantes na sua bibliografia), e, sem dúvida, a melhor. Neste romance &#8211; que lançou o autor à fama literária &#8211; o leitor  assume a perspectiva do interlocutor, o psiquiatra de Alexander Portnoy, que, no divã, descreve os momentos mais marcantes da sua vida, transitando  entre situações de sua infância, adolescência e vida adulta, expondo  seus traumas e descortinando as causas de suas neuroses.</p>
<p>Mas, você deve estar se perguntando, quem é Alexander Portnoy?</p>
<p>Alexander Portnoy foi um estudante exemplar, de inteligência ímpar e obediência familiar invejável, que se tornou um cidadão honorável, um intelectual bem versado e um político que luta por causas nobres, embuído de renome e status. No entanto, a despeito de tudo isso, ele leva uma vida miserável, refém de emoções como culpa, aflição e frustração. A razão de ser disso é revelada ao leitor antes da própria introdução ao personagem:<span id="more-4893"></span></p>
<blockquote><p>Complexo de Portnoy (pórt-noi) <em>subs.</em> [de Alexander Portnoy (1933- )] Quadro mórbido caracterizado por fortes im­­pulsos éticos e  altruísticos em constante conflito com anseios sexuais extremos, muitas  vezes de natureza pervertida [...] Atos de exibicionismo, voyeurismo, feitichismo, auto-erotismo e coito oral são abundantes; em consequência da &#8216;moralidade&#8217; do paciente, porém, nem as fantasias nem o ato geram gratificação sexual genuína, mas sim sentimentos avassaladores de vergonha e temor de punição, em particular sob a forma de castração.</p></blockquote>
<p>Portnoy é alguém que desde pequeno carrega o fardo de ser o depositório de todas as expectativas da família, que nele veem a possibilidade de concretização do sucesso e prosperidade que falharam em experimentar, oprimido, de um lado, por uma mãe judaica ao mesmo tempo afável e tenebrosa (um incidente em particular, no qual ela o ameaça <em>com uma faca</em>, é mencionado sucessivas vezes), do outro, por uma cultura que o aliena do mundo em que reside, restringindo-o e sufocando (convergindo numa anedota de incrível humor-negro, envolvendo um suicida e sua carta de despedida).</p>
<p>A despeito de tudo isso, Roth não retrata Portnoy como um mero pobre coitado, imputando-o de nuances &#8211; tanto positivas quanto negativas &#8211; que o humanizam. Embora admitidamente despreze a sua cultura, ele não consegue deixar de se  achar<em> superior<em> </em></em>por conta dela, o que se manifesta em particular nos seus relacionamentos (vide comentário abaixo):</p>
<blockquote><p><em>Not to  mention &#8220;dear&#8221; as it the salutation of a letter: d-e-r-e. Or d-e-i-r.  And that very first time (this I love) d-i-r. On the evening we are  scheduled for dinner at Gracie Mansion&#8211;D!I!R! I mean, I just have to  ask myself&#8211;what am I doing having an affair with a woman nearly thirty  years of age who thinks you spell &#8220;dear&#8221; with three letters! </em></p></blockquote>
<p>Seu comportamento também é ora sexista, ora insensível, ora violento (ele tenta <strong>estuprar</strong> uma moça em dado momento). A narrativa culmina numa viagem à Israel, em que todas suas contradições e hipocrisia são expostas à escaldante luz do Sol por uma jovem e engajada militante judia, que o vê de forma clara e lúcida, além de seu humor auto-depreciativo e pretensa intelectualidade.</p>
<blockquote><p><em>Bullshit!  Commisioner of Cunt, that&#8217;s who you are! Commissioner of Human  Opportunists! Oh, you jerk-off artist! You case of arrested  development!&#8230; what&#8217;s good, you accomplished all on your own! You  ignoramus! You icebox heart! Why are you chained to a toilet? I&#8217;ll tell  you why: poetic justice! So you can pull your peter till the end of  time! Jerk your precious little dum-dum ad infinitum! Go ahead, pull  off, Commissioner, that&#8217;s all you ever really gave your heart to  anyway&#8211;you stinking putz!</em></p></blockquote>
<p>Todavia, a despeito de todos os seus defeitos, é impossível não simpatizar com o personagem &#8211; em parte graças à engenhosa construção da narrativa, composta por momentos mnemônicos não-lineares que gradativamente formam um todo coeso, em parte graças à fabulosa prosa de Roth, cômica e vibrante, que nos persuade a tentar compreendê-lo e aturá-lo &#8211; no processo nos fazendo perceber que muitos dos complexos de Portnoy também são nossos. Que jogue a primeira pedra quem nunca se sentiu fora de sintonia com os valores da família, ou pressionado pelos pais, ou frustrado com sua vida amorosa.</p>
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		<title>Batman: O Longo Dia das Bruxas</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 20:36:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Longo Dia das Bruxas, maxissérie escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale, dois pesos-pesados da indústria dos quadrinhos, é uma das histórias mais importagens no universo do Homem-Morcego, responsável por definir o canon da transição de Harvey Dent no vilão Duas-Caras, além de certos elementos de sua premissa terem inspirado os irmãos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/12/Longo-Hallo.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4869" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/12/Longo-Hallo.jpg" alt="Longo Hallo" width="375" height="495" /></a>O Longo Dia das Bruxas</strong>, maxissérie escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale, dois pesos-pesados da indústria dos quadrinhos, é uma das histórias mais importagens no universo do Homem-Morcego, responsável por definir o <em>canon</em> da transição de Harvey Dent no vilão Duas-Caras, além de certos elementos de sua premissa terem inspirado os irmãos Nolan em <em>O Cavaleiro das Trevas</em> &#8211; a ponto dos dois escreverem um prefácio para um encadernado de luxo da história.</p>
<p>A ambientação é o que chama logo a atenção e é, sem dúvida, o grande destaque da obra:  Sale veste Gotham com uma roupagem noir, fazendo bom uso de sombras e de uma paleta de cores rica em contrastes,  enquanto Loeb pinta um competente retrato da máfia local, claramente inspirado no trabalho de cineastas como Coppola e Scorcese, que encontra-se acuada pela onda crescente de super-vilões a assolarem a cidade desde o surgimento do Cavaleiro das Trevas &#8211; um dos temas emprestados pelos Nolan para seus filmes.</p>
<p>Infelizmente, contudo, Loeb não abre mão do recurso do &#8220;<em>whodunit?</em>&#8220;, elemento onipresente em sua carreira. Aqui, o mistério gira em torno de um assassino conhecido como Feriado, que, como o próprio nome já denúncia, ataca apenas em feriados, sempre mirando em membros da família de mafiosos que controlam submundo de Gotham.<span id="more-4866"></span></p>
<p>A questão é bem conduzida até o final, quando Loeb, na necessidade de chocar o leitor, vacila feio na revelação da identidade(s) do personagem, cuja alegada ambiguidade é uma mera desculpa para justificar os muitos furos que se evidenciam numa análise mais atenta.</p>
<p>Na edição definitiva publicado por aqui pela Panini &#8211; cujo tratamento arrojado a editora só viria a reproduzir com <em>Watchmen</em> &#8211; há, entre os extras, o esboço do roteiro original escrito por Loeb que passou por acentuadas mudanças, a principal deles pertinente ao tal do Feriado: originalmente, ele seria o assassino conhecido como Calendário, um obscuro nome da galeria de vilões do Batman. Na versão final do roteiro ele foi rebaixado a um coadjuvante a quem o morcegão busca assistência para lidar com o Feriado.</p>
<p>No frigir dos ovos, trata-se de uma história com méritos óbvios e inegáveis &#8211; tal como ser a pioneira em retratar Dent como um promotor cada vez mais amargurado com um sistema corrupto e ineficiente &#8211; mas que se mostra frustrantemente insatisfatória no fim. Sua relevância história é inegável, mas eu não a poria de jeito algum no <em>roll</em> das melhores histórias protagonizados pelo Cavaleiro de Gotham. E tampouco pagaria os R$95 cobrados por ela.</p>
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		<title>Homem Comum (Philip Roth)</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Nov 2009 02:40:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Philip Milton Roth é considerado um dos últimos &#8220;titãs&#8221; da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (A Estrada) e Thomas Pynchon, ganhador de dois National Book Awards (o equivalente literário norte-americano ao Oscar), dois National Book Critics Circle Awards e um Pulitzer &#8211; fora incontáveis outros prêmios. Entre diversos trabalhos do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/homem-comum.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4855" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/homem-comum.jpg" alt="homem-comum" width="300" height="461" /></a> Philip Milton Roth</strong> é considerado um dos últimos &#8220;titãs&#8221; da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (<a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/2009/11/08/a-estrada/" target="_blank">A Estrada</a>) e Thomas Pynchon, ganhador de dois <em>National Book Awards</em> (o equivalente literário norte-americano ao Oscar), dois <em>National Book Critics Circle Awards</em> e um <em>Pulitzer</em> &#8211; fora incontáveis outros prêmios.</p>
<p>Entre diversos trabalhos do autor vistos como obras-primas, meu primeiro contato com a ficção de Roth se deu por meio de um dos seus romances &#8220;menores&#8221;, de publicação recente: Homem Comum (ou <em>Everyman</em>, no original), alusão a um poema medieval datado do século quinze, de autoria desconhecida.</p>
<p>O romance se inicia de maneira intrigante, partindo pelo <em>fim</em> da narrativa: o enterro do protagonista (cujo nome nunca ficamos a par), acompanhado pelo discurso de uma gama de personagens que o leitor virá a se familiarizar com o passar do tempo, cada  um dotado de sua própria visão do falecido: seja de incompreensão (seu irmão, Howie), de estima (sua filha, Nancy), de amor (sua segunda ex-esposa, Phoebe) ou de raiva (seus dois filhos do primeiro casamento).</p>
<p>A narrativa, então, retrocede no tempo para a infância do sujeito e segue, a partir dai, mais ou menos linearmente. Assistimos ao apogeu profissional e emocional do personagem e a seu subsequente declínio, numa narrativa que nunca falha em remeter ao seu tema principal: a Morte, e como nós a encaramos e nos relacionamos com ela, sintetizado pelo Homem Comum, cujas virtudes, defeitos, vícios e ideais encontram ressonância em cada um de nós em menor ou maior grau.<span id="more-4851"></span></p>
<p>O primeiro contato que Ele tem com a Morte é na sua tenra infância, quando um cadáver aparece na praia que ele e a família costumavam frequenter; eles se reencontram pouco tempo depois, na forma de um companheiro hospitalar, um garoto tal como ele, cuja existência se mostrou breve demais.</p>
<blockquote><p>De início, não adormeceu porque ficou esperando que o outro menino morresse, e depois porque não conseguia parar de pensar no corpo do afogado que o mar tinha largado na praia no último verão.</p></blockquote>
<p>Anos depois, no auge da sua vida adulta &#8211; publicitário bem-sucedido, garanhão e saudável &#8211; esse tipo de pensamento ainda o atormenta.  A mortalidade se tornou um estigma que ele passou a carregar, onipresente, pairando sobre todos os aspectos da sua vida.  <em>Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranquilo e objetivo lhe dizia que ainda tinha muita vida sólida pela frente?</em>, indaga Roth. Ironicamente, é a partir desse ponto que a sua saúde se deteriora a passos largos, exigindo intervenções médicas recorrentes.</p>
<p>Quando o Sujeito chega à reta final da sua vida &#8211; e o livro, por tabela, ao seu fim &#8211; ele se vê solitário, combalido e isolado da sua família, jazendo amargamente num retiro para velhos, tendo como único passatempo a pintura, atividade essa que não tarda a perder seu encanto.</p>
<p>Suas tentativas em remediar essa situação são inexoravelmente frustadas: as moças com quem ele flerta não lhe dão atenção, seus poucos amigos estão ou mortos, ou em vias para tanto, e ele não é bem-recebido em nenhuma das duas famílias que ele ajudou a construir, exceptuando-se pela sua filha mais nova, que nutre por ele um carinho admitidamente injustificado.</p>
<blockquote><p>Havia cortado suas raízes justamente no momento em que a idade exigia que ele estivesse tão arraigado quanto no tempo em que dirigia o departamento de criação da agência publicitária. Ele sempre se sentira revigorado pela estabilidade, nunca pela imobilidade. E sua vida atual era pura estagnação. Agora lhe faltavam todas as formas de alívio, vivia uma esterilidade disfarçada de consolo, e  não era possível voltar atrás.</p></blockquote>
<p>Trata-se, em suma, de um romance bastante sombrio que registra os piores aspectos do envelhecimento &#8211; a fragilidade,  o isolamento, a impotência &#8211; na figura de um indivíduo cuja vida foi marcada pelo temor do produto final da soma desses fatores e que vem a constatar, muito para a sua infelicidade, que simplesmente seguiu a estrada errada na vida.</p>
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		<title>A Estrada</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 16:35:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O fim do mundo é um tema que sempre nos fascinou, sendo uma presença recorrente no nosso imaginário desde tempos remotos, manifestando-se  tanto na religião quanto nas Artes. As causas se moldam conforme o contexto da época: na Idade Média teve um caráter religioso, justificando-se por meio do Apocalipse; em tempos modernos, em particular durante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/theroad.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4829" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/theroad.jpg" alt="theroad" width="300" height="485" /></a>O fim do mundo é um tema que sempre nos fascinou, sendo uma presença recorrente no nosso imaginário desde tempos remotos, manifestando-se  tanto na religião quanto nas Artes. As causas se moldam conforme o contexto da época: na Idade Média teve um caráter religioso, justificando-se por meio do <em>Apocalipse; </em>em tempos modernos, em particular durante meados do século XX,<em> </em>passou a ser uma hecatombe nuclear; e, em tempos contemporâneos, na destruição irreparável do meio-ambiente.</p>
<p>Em vista disso, explorar referido tema de forma original e interessante representa um desafio enorme, visto que o mesmo já foi trabalhado de incontáveis maneiras no decurso da história -- é necessário, portanto, um artista com bastante desenvoltura e, acima de tudo, talento.</p>
<p>E McCarthy tem talento para dar e vender.</p>
<p>Em <em><strong>A Estrada</strong></em> (Alfaguara, 234 páginas; R$ 36,90), acompanhamos as travessias de um pai e seu menino -- identificados exatamente dessa forma pelo autor -- numa América pós-apocalíptica, vítima de uma catástrofe que -- a fim de conferir um caráter atemporal à história -  nunca é especificada. Agarrando-se a um último fiapo de esperança, eles cruzam os Estados Unidos em direção ao mar, na esperança de encontrarem algum conforto, seguindo pela estrada do título.<span id="more-4821"></span></p>
<p>Naturalmente, no decorrer da narrativa, o Pai e o Menino cruzam caminhos com outros sobreviventes, embora em termos, via de regra, pouco amistosos. O colapso da sociedade impeliu os poucos sobreviventes a regressarem a um estado neolítico, vivendo em tribos e caçando em bandos -- geralmente, seres da própria espécie. O canibalismo, em virtude da escassez de comida, tornou-se uma necessidade.</p>
<p>Há exceções, evidentemente; duas deles sendo o  par de protagonistas: o menino, por estar sempre sob os cuidados do Pai, ainda retém certa inocência; e o dito cujo, que cultiva a humanidade que ainda lhe resta em prol do filho, perserverando contra todas as adversidades -- doença, fome, cansaço -- para resguardá-lo.</p>
<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/theroadfirstphoto.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-4833" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/11/theroadfirstphoto.jpg" alt="theroadfirstphoto" width="500" height="335" /></a></p>
<p>É importante frisar que este romance não se trata de uma<em> aventura</em>, mas, sim, de uma <strong>jornada</strong>: a ênfase é no cotidiano dos personagens e todas as dificuldades atreladas a ela. McCarthy foi, neste ponto, extremamente minucioso, explorando todas os empecilhos e problemas que dois indivíduos nessa situação possivelmente teriam que lidar, como a busca por alimento, abrigo, roupas etc. Quase um manual de sobrevivência. Embora momentos mais frenéticos existam, eles são pontuais, dispersos ao longo da narrativa.</p>
<p>A linguagem concisa, seca e direta de McCarthy encontra, aqui, o seu par temático perfeito. As descrições das paisagens naturais -- cinzentas e mortas -- e do tecido urbano -- necrosado e pútrido -- incitam no leitor um desconforto perene, um senso gradativamente maior de opressão -- como se esses cenários estivessem se construíndo ao seu redor, propiciando acesso à própria aflição dos personagens.</p>
<p>O romance foi reconhecido como uma obra-prima contemporânea, a ponto de ser definido, pela crítica, como a Obra Definitiva na literatura pós-apocalíptica. Em 2007 venceu o <em>Pulitzer Prize for Fiction</em>. O livro também foi um dos finalistas do <em>National Book Awards </em>em 2006.</p>
<p>Uma adaptação cinematográfica, dirigida por John Hillcoat (do cult <em>A Proposta</em>) e estrelado por Viggo Mortensen (Pai) e pelo desconhecido Kodi Smit-McPhee (Menino), estreará em Novembro deste ano, e é vista como uma concorrente de peso para os óscares; no Brasil, apenas em 2010.</p>
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		<title>Esperando Godot (Samuel Beckett)</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 17:04:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/09/Godot.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-4774" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/09/Godot.jpg" alt="Godot" width="400" height="603" /></a></p>
<p>Títulos costumeiramente denunciam as peças-chave de suas histórias; vide, por exemplo, os livros da série <em>Harry Potter</em>, que sempre fazem menção a elementos fundamentais da trama em questão (<em>e.g: A Pedra Filososal</em>), ou, ainda, os romances conspiratórios de Dan Brown. Por isso mesmo, quando vemos um título como <em>Esperando Godot</em>, é natural assumir que a identidade do Godot e/ou o contexto de sua aparição serão de imprescindível importância à trama. Afinal, caso contrário, por que ressaltar o personagem a tal ponto de nomear a própria obra atrás dele?</p>
<p>Trata-se, contudo, de uma expectativa enganosa: Godot nada mais é do que o equivalente literário do conceito de <em>MacGuffin</em> popularizado por Hitchcock:</p>
<blockquote><p>[É] o dispositivo, o artifício, ou os papéis que os espiões estão atrás&#8230; A única coisa que realmente importa no filme é que os planos, documentos ou segredos pareçam de vital importância para os personagens. Para mim, o narrador, eles não têm qualquer relevância.</p></blockquote>
<p>Godot nunca aparece. Ao leitor é entregue apenas vagas descrições de sua aparência. A sua identidade<em> per se</em> não é o que importa, mas, sim, o que ele representa, o que também é vago e aberto a interpretações. Godot pode representar a esperança, ou a liberdade, ou a salvação, ou  redenção, ou simplesmente uma alegoria a Deus. A força do personagem jaz justamente na sua obscuridade, como explica David Mamet no seu<em> Three Uses of the Knife</em>:</p>
<blockquote><p>Quão menos específicas as qualidades do MacGuffin forem, mais interessada a audiência ficará&#8230; Uma abstração vaga permite aos membros da audiência projetar seus próprios desejos num alvo essencialmente ausente.</p></blockquote>
<p><span id="more-4768"></span><br />
<em> Esperando Godot</em> foi escrita por <strong>Samuel Beckett</strong> em meados dos anos 50, numa Europa ainda se recuperando das calamidades da Segunda Guerra. Trata-se não de um romance, e, sim, de uma peça teatral, constituída por apenas quatro personagens: os amigos Vladimir e Estragon, à espera de Godot por uma &#8220;prece&#8221; ou &#8220;vaga súplica&#8221;, como indicado pelo segundo; Pozzo e Lucky, mestre e servo, respectivamente, que cruzam caminhos com os dois herois em meados de cada ato em estados drasticamente diferentes; ainda, há a presença, no desfecho de cada ato, de um mensageiro de Godot, que, em ambas as ocasiões, desculpa-se pela ausência do mesmo e promete que, no dia seguinte, ele aparecerá (prometa essa que nunca se cumpre).</p>
<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/09/beckett.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-4777" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/09/beckett-217x300.gif" alt="beckett" width="217" height="300" /></a></p>
<p>Ao longo das poucas mais de duzentas páginas da peça, a ação é mínima, a narrativa é  ancorada nos diálogos e divagações dos personagens, que frequentemente se entregam a uma <em>stream of thought</em> coletiva, complementado as ideias uns dos outros, ou denotando suas contradições e/ou implicações, num hábil exercício linguístico recheado de humor negro e sutis críticas sociais.</p>
<p>Também vale a pena ressaltar a forma como Beckett distorce, gradativamente, a noção de tempo da história, a ponto de pôr  em dúvida tanto o leitor quanto os personagens a real duração dos eventos. É dito no começo da peça que o par de protagonista está há dois dias à espera de Godot, mas surgem inúmeros indícios ao longo da narrativa que contradizem isso &#8211; como o fato de Pozzo não se lembrar deles, ou a árvore &#8211; o único elemento na paisagem desoladada peça &#8211; aparecer subitamente folheada no segundo dia, quando no primeiro estava totalmente &#8220;nua&#8221;.</p>
<p><em>Esperando Godot</em> é um dos exemplos mais conhecidos e memoráveis do <em>Teatro do Absurdo</em>, termo criado nos anos sessenta para designar uma série de peças das décadas anteriores que, embora bem diferentes entre si, compartilhavam de várias características em comum, como o enredo muitas vezes non-sense e  diálogos naturalistas e evasivos.</p>
<p>No Brasil, a peça foi publicada pela editora Cosac Naify numa edição de luxo, com acabamento em capa-dura e vários extras, como fotografias das numerosas interpretações da peça e  diversos artigos que visam a dissecar os  significados da obra, oriundos de especialistas da área eprincipalmente, de Beckett. A tradução foi feita pelo professor de Teoria Literária da USP, Fábio de Souza Andrade, com apêndices que esclarecem pormenores do texto.</p>
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		<title>O Outro</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Aug 2009 17:50:23 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Bernhard Schlink é, internacionalmente, um dos autores alemães mais bem-sucedidos da atualidade. Seu polêmico O Leitor, cuja premissa funciona como metáfora para o zeitgeist de culpa e vergonha alemão do pós-guerra, foi um best-seller tanto dentro quanto fora do seu país, culminando numa adaptação para os cinemas em 2008, dirigido por Stephen Daldry e com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/08/ooutro.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-4623" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/08/ooutro.jpg" alt="O Outro" width="326" height="500" /></a></p>
<p>Bernhard Schlink é, internacionalmente, um dos autores alemães mais bem-sucedidos da atualidade. Seu polêmico <em>O Leitor</em>, cuja premissa funciona como metáfora para o <em>zeitgeist</em> de culpa e vergonha alemão do pós-guerra, foi um <em>best-seller</em> tanto dentro quanto fora do seu país, culminando numa adaptação para os cinemas em 2008, dirigido por Stephen Daldry e com Kate Winslet e Ralph Fiennes nos papéis principais.</p>
<p>No Brasil, o título repetiu o sucesso internacional, com uma reedição lançada concomitantemente ao filme que permaneceu várias semanas em listas de mais vendidos, o que incentivou a Record a publicar mais um de seus trabalhos por aqui: <em>O Outro</em>.</p>
<div id="attachment_4624" class="wp-caption alignleft" style="width: 235px"><a href="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/08/250px-BernhardSchlinkPortrait.jpg"><img class="size-medium wp-image-4624" src="http://omegageek.com.br/oneuromancista/files/2009/08/250px-BernhardSchlinkPortrait-225x300.jpg" alt="Bernhard Schlink" width="225" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Bernhard Schlink</p></div>
<p>Um sujeito comum descobre que sua falecida esposa, a quem ele confiava totalmente, teve um caso, por anos, com Outro, ao checar uma correspondência do dito cujo a ela, ignorante do  seu falecimento. O viúvo, então, aproveitando-se da anonimidade da língua escrita, personifica-a em cartas, a fim de descobrir as circunstâncias e a natureza dessa traição e, no processo, aprendendo a respeito dela, de si e do Outro</p>
<p>A premissa é instigante, mas o seu desenvolvimento não faz jus à expectativa criada &#8211; a narrativa de Schlink  é tão concisa que todo o potencial dramático da história é sufocado. Os eventos são narrados friamente, com escassos lampejos poéticos; os personagens são meros esboços de pessoas, vazios, desprovidos de empatia e com caracterizações pífias.</p>
<p>A proposta do livro havia de oferecer farto material para reflexões, se abordada com mais sensibilidade. Bengt (chamado <em>Peter </em>no longa-metragem) encontrara conforto na rotina, e, sem perceber, afastara-se emocionalmente da sua esposa, o que se manifesta  na sua total ignorância quanto aos anseios de sua falecida amada, embora, fisicamente, nunca tenham se separados. Infelizmente, esses são temas trabalhados superficialmente, jamais alcançando um efeito dramático que ecoe no leitor.</p>
<p>Publicado pela Edit. RECORD, 96 páginas. R$12,90. Tradução de Kristina Michahelles.</p>
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		<title>A Metamorfose</title>
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		<pubDate>Wed, 06 May 2009 17:04:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Comente este artigo no Fórum Omega Geek. Em A Metamorfose acompanhamos a vida de um caixeiro-viajante de nome Gregor Samsa que, após uma noite de &#8220;sonhos intranquilos&#8221;, vê-se transformado num inseto grande e monstruoso, dotado de inúmeras patas, um par de antenas e costas duras como couraça (à mente, vem a imagem de uma barata, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><a href="http://omegageek.com.br/forum/showthread.php?p=119203#post119203">Comente este artigo no Fórum Omega Geek.</a></p>
<p><a href="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/cover.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-4421" src="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/cover.jpg" alt="cover" width="360" height="500" /></a></p>
<p>Em <em>A Metamorfose</em> acompanhamos a vida de um caixeiro-viajante de nome Gregor Samsa que, após uma noite de &#8220;sonhos intranquilos&#8221;, vê-se transformado num inseto grande e monstruoso, dotado de inúmeras patas, um par de antenas e costas duras como couraça (à mente, vem a imagem de uma barata, embora isso nunca seja corroborado pelo texto). Samsa, todavia, exibe uma naturalidade ímpar ao fato, preocupando-se solemente com a insatisfação do seu chefe perante o seu atraso nesse dia em específico.</p>
<p>Contudo, o entorpecimento excêntrico com o qual Gregor encara a sua nova condição não é compartilhado pelos seus familiares, nem com o gerente da firma para qual trabalha que foi à sua casa demandando explicações. Todos se mostram horrorizados com a sua aparência, o gerente foje desesperadamente, e o pai obriga Samsa voltar para seu quarto, sob a ameaça de violência física.</p>
<div id="attachment_4423" class="wp-caption alignright" style="width: 219px"><a href="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/graphic1.jpg"><img class="size-medium wp-image-4423" src="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/graphic1.jpg?w=209" alt="A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos" width="209" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">A Metamorfose, traduzida para os quadrinhos</p></div>
<p>Desse ponto em diante, somos expostos às lucubrações do protagonista quanto à sua nova condição, à dinâmica familiar que se costura e impera na família e ao progressivo distanciamento e repulsa que a sua família passa a nutrir por ele, culminando no total isolamento do filho e ao desejo de se ver livre dele, confortando-se na ideia de que, afinal, aquele ser grotesco não poderia possivelmente mais ser o filho deles.</p>
<p>A Metamorfose apresenta uma leitura concisa e engajante, dotada de um humor inusitado e orgânico, justificado pela maneira indiferente com a qual Samsa encara o seu novo estado. Embora curto (a edição da <em>Companhia das Letras</em>, com tradução de Modesto Carone, conta com meras 102 páginas, das quais 85 são da história propriamente dita), o romance dá margem a diversas interpretações para a situação inusitada do seu protagonista e o que Kafka pretendia com isso. Uma crítica ao capitalismo? Um estudo da hipocrisia humana? Uma alusão à sua própria dinâmica familiar (é notória a problemática relação de Kafka com o pai)?</p>
<p><em>A Metamorfose</em> se configura como um dos raros trabalhos de Kafka publicados anteriormente à sua morte, tendo-lhe rendido, inclusive, o Prêmio Fontane de Literatura &#8211; entregue a ele por Carl Sternheim, dramaturgo e famosos expressionista alemão &#8211; e por ser o mais longo dos seus contos (ainda assim, escrito em apenas vinte dias!). É possível lê-lo, na íntegra, <a href="http://www.culturabrasil.pro.br/ametamorfose.htm">aqui</a>.</p>
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		<title>Count Zero</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Apr 2009 02:21:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regente</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/855020-7474-it2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-4334" src="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/855020-7474-it2.jpg" alt="Aleph Cover" width="286" height="320" /></a></p>
<p>Em meados dos anos oitenta, <strong>William Gibson</strong>, ao lado de autores como Neal Stephenson e Bruce Sterling,  revolucionou o gênero da ficção-científica literária com <em>Neuromancer</em> (que já foi comentado por mim <a href="http://battlenerds.wordpress.com/2009/02/18/neuromancer/">aqui</a>), livro que lhe rendeu uma série de prêmios e que, em 2006, foi incluído na lista <em>Os Cem Melhores Romances da Lingua Inglesa</em>, da revista Time, devido a sua inegável importância histórica.</p>
<p><em><strong>Count Zero</strong></em>, publicado dois anos depois, situa-se oito anos após os eventos transcorridos em <em>Neuromancer</em>, e é protagonizado por uma nova gama de personagens. A obra expande o universo tecno-anárquico criado por Gibson, aprofundando-se em temas que no livro anterior foram apenas mencionados, como o poder ilimitado das corporações e suas ramificações na dinâmica social, além de dar prosseguimento a certos pontos soltos, como o destino de Wintermute e de que maneira a sua existência afeta o cyberspaço.</p>
<p><span id="more-4330"></span></p>
<p>Além disso, Gibson também refinou a sua escrita, tornando-a mais lacônica e a extripando do pedantismo descritivo que tanto prejudicou o ritmo da sua novela anterior. Agora, os relatos são feitos com um propósito narrativo claro, sem se alongarem demais e com menos abstrações, conferindo um dinamismo bem maior à leitura.</p>
<div id="attachment_4341" class="wp-caption alignright" style="width: 211px"><a href="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/gibson_william_4001.jpg"><img class="size-medium wp-image-4341" src="http://battlenerds.files.wordpress.com/2009/04/gibson_william_4001.jpg?w=201" alt="William Gibson" width="201" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">William Gibson</p></div>
<p>Inclusive, é na construção do enredo que Gibson demonstra o amadurecimento mais evidente. Esqueça o desenvolvimento linear de <em>Neuromancer</em>. O <em>storytelling</em> estabelecido aqui marca presença em todos os romances subsequentes do autor, tornando-se uma espécie de assinatura. A trama é fragmentada em núcleos distintos, que se alternam, convergindo apenas no final, mas que se interligam desde o começo, ainda que tal conexão não fique clara ao leitor até os últimos capítulos.</p>
<p><strong>Turner</strong> é um mercenário, um sabujo das megacorporações, especializado em realizar transações ilegais de alta periculosidade, muitas vezes envolvendo intrigas corporativas, como a deserção de funcionários de uma empresa a outra, roubo de tecnologia ou obtenção de informação classificada. Sua lealdade é temporária, variando de serviço a serviço.</p>
<p><strong>Bobby Newmark</strong> &#8211; a.k.a Count Zero &#8211; é um &#8220;wilson&#8221; (equivalente ao <em>n00b</em> de hoje em dia), um aspirante a cowboy cujo maior sonho é sair da sua pacata cidadezinha e fazer seu nome no Sprawl. A ele é concedido um novo e experimental pedaço de software, que ele ingenuinamente supõe se tratar de um ICE-Breaker. Após uma incursão desastrosa na Matrix, ele é quase morto pela ação de um Black ICE, se não fosse por uma misteriosa ajuda vinda da net.</p>
<p><strong>Marley Krushkhova</strong> é uma profissional falida e arruinada do ramo das Artes cuja vida muda do dia pra noite ao ser contratada pelo magnata e todo-poderoso Herr Virek para localizar o criador de uma série de peças de Arte modernas, caixas que, nas palavras do autor, evocam &#8220;distâncias impossíveis, de perdas e anseios [..] lúgubre, suave e, de alguma forma, infantil&#8221; e que compunham &#8220;um universo, um poema  congelado nas fronteiras da experiência humana&#8221;.</p>
<p><em><strong>Count Zero</strong></em> foi indicado tanto ao Nebula Awards quanto ao Hugo Awards na categoria de Melhor Novela de Ficção, as premiações de maior renome do meio F.C. É possível ler o primeiro capítulo &#8211; em inglês &#8211; <a href="http://www.williamgibsonbooks.com/books/zero.asp#excerpt">aqui</a>.</p>
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