11.28
Philip Milton Roth é considerado um dos últimos “titãs” da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (A Estrada) e Thomas Pynchon, ganhador de dois National Book Awards (o equivalente literário norte-americano ao Oscar), dois National Book Critics Circle Awards e um Pulitzer – fora incontáveis outros prêmios.
Entre diversos trabalhos do autor vistos como obras-primas, meu primeiro contato com a ficção de Roth se deu por meio de um dos seus romances “menores”, de publicação recente: Homem Comum (ou Everyman, no original), alusão a um poema medieval datado do século quinze, de autoria desconhecida.
O romance se inicia de maneira intrigante, partindo pelo fim da narrativa: o enterro do protagonista (cujo nome nunca ficamos a par), acompanhado pelo discurso de uma gama de personagens que o leitor virá a se familiarizar com o passar do tempo, cada um dotado de sua própria visão do falecido: seja de incompreensão (seu irmão, Howie), de estima (sua filha, Nancy), de amor (sua segunda ex-esposa, Phoebe) ou de raiva (seus dois filhos do primeiro casamento).
A narrativa, então, retrocede no tempo para a infância do sujeito e segue, a partir dai, mais ou menos linearmente. Assistimos ao apogeu profissional e emocional do personagem e a seu subsequente declínio, numa narrativa que nunca falha em remeter ao seu tema principal: a Morte, e como nós a encaramos e nos relacionamos com ela, sintetizado pelo Homem Comum, cujas virtudes, defeitos, vícios e ideais encontram ressonância em cada um de nós em menor ou maior grau.
O primeiro contato que Ele tem com a Morte é na sua tenra infância, quando um cadáver aparece na praia que ele e a família costumavam frequenter; eles se reencontram pouco tempo depois, na forma de um companheiro hospitalar, um garoto tal como ele, cuja existência se mostrou breve demais.
De início, não adormeceu porque ficou esperando que o outro menino morresse, e depois porque não conseguia parar de pensar no corpo do afogado que o mar tinha largado na praia no último verão.
Anos depois, no auge da sua vida adulta – publicitário bem-sucedido, garanhão e saudável – esse tipo de pensamento ainda o atormenta. A mortalidade se tornou um estigma que ele passou a carregar, onipresente, pairando sobre todos os aspectos da sua vida. Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranquilo e objetivo lhe dizia que ainda tinha muita vida sólida pela frente?, indaga Roth. Ironicamente, é a partir desse ponto que a sua saúde se deteriora a passos largos, exigindo intervenções médicas recorrentes.
Quando o Sujeito chega à reta final da sua vida – e o livro, por tabela, ao seu fim – ele se vê solitário, combalido e isolado da sua família, jazendo amargamente num retiro para velhos, tendo como único passatempo a pintura, atividade essa que não tarda a perder seu encanto.
Suas tentativas em remediar essa situação são inexoravelmente frustadas: as moças com quem ele flerta não lhe dão atenção, seus poucos amigos estão ou mortos, ou em vias para tanto, e ele não é bem-recebido em nenhuma das duas famílias que ele ajudou a construir, exceptuando-se pela sua filha mais nova, que nutre por ele um carinho admitidamente injustificado.
Havia cortado suas raízes justamente no momento em que a idade exigia que ele estivesse tão arraigado quanto no tempo em que dirigia o departamento de criação da agência publicitária. Ele sempre se sentira revigorado pela estabilidade, nunca pela imobilidade. E sua vida atual era pura estagnação. Agora lhe faltavam todas as formas de alívio, vivia uma esterilidade disfarçada de consolo, e não era possível voltar atrás.
Trata-se, em suma, de um romance bastante sombrio que registra os piores aspectos do envelhecimento – a fragilidade, o isolamento, a impotência – na figura de um indivíduo cuja vida foi marcada pelo temor do produto final da soma desses fatores e que vem a constatar, muito para a sua infelicidade, que simplesmente seguiu a estrada errada na vida.
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