11.08
O fim do mundo é um tema que sempre nos fascinou, sendo uma presença recorrente no nosso imaginário desde tempos remotos, manifestando-se tanto na religião quanto nas Artes. As causas se moldam conforme o contexto da época: na Idade Média teve um caráter religioso, justificando-se por meio do Apocalipse; em tempos modernos, em particular durante meados do século XX, passou a ser uma hecatombe nuclear; e, em tempos contemporâneos, na destruição irreparável do meio-ambiente.
Em vista disso, explorar referido tema de forma original e interessante representa um desafio enorme, visto que o mesmo já foi trabalhado de incontáveis maneiras no decurso da história -- é necessário, portanto, um artista com bastante desenvoltura e, acima de tudo, talento.
E McCarthy tem talento para dar e vender.
Em A Estrada (Alfaguara, 234 páginas; R$ 36,90), acompanhamos as travessias de um pai e seu menino -- identificados exatamente dessa forma pelo autor -- numa América pós-apocalíptica, vítima de uma catástrofe que -- a fim de conferir um caráter atemporal à história - nunca é especificada. Agarrando-se a um último fiapo de esperança, eles cruzam os Estados Unidos em direção ao mar, na esperança de encontrarem algum conforto, seguindo pela estrada do título.
Naturalmente, no decorrer da narrativa, o Pai e o Menino cruzam caminhos com outros sobreviventes, embora em termos, via de regra, pouco amistosos. O colapso da sociedade impeliu os poucos sobreviventes a regressarem a um estado neolítico, vivendo em tribos e caçando em bandos -- geralmente, seres da própria espécie. O canibalismo, em virtude da escassez de comida, tornou-se uma necessidade.
Há exceções, evidentemente; duas deles sendo o par de protagonistas: o menino, por estar sempre sob os cuidados do Pai, ainda retém certa inocência; e o dito cujo, que cultiva a humanidade que ainda lhe resta em prol do filho, perserverando contra todas as adversidades -- doença, fome, cansaço -- para resguardá-lo.
É importante frisar que este romance não se trata de uma aventura, mas, sim, de uma jornada: a ênfase é no cotidiano dos personagens e todas as dificuldades atreladas a ela. McCarthy foi, neste ponto, extremamente minucioso, explorando todas os empecilhos e problemas que dois indivíduos nessa situação possivelmente teriam que lidar, como a busca por alimento, abrigo, roupas etc. Quase um manual de sobrevivência. Embora momentos mais frenéticos existam, eles são pontuais, dispersos ao longo da narrativa.
A linguagem concisa, seca e direta de McCarthy encontra, aqui, o seu par temático perfeito. As descrições das paisagens naturais -- cinzentas e mortas -- e do tecido urbano -- necrosado e pútrido -- incitam no leitor um desconforto perene, um senso gradativamente maior de opressão -- como se esses cenários estivessem se construíndo ao seu redor, propiciando acesso à própria aflição dos personagens.
O romance foi reconhecido como uma obra-prima contemporânea, a ponto de ser definido, pela crítica, como a Obra Definitiva na literatura pós-apocalíptica. Em 2007 venceu o Pulitzer Prize for Fiction. O livro também foi um dos finalistas do National Book Awards em 2006.
Uma adaptação cinematográfica, dirigida por John Hillcoat (do cult A Proposta) e estrelado por Viggo Mortensen (Pai) e pelo desconhecido Kodi Smit-McPhee (Menino), estreará em Novembro deste ano, e é vista como uma concorrente de peso para os óscares; no Brasil, apenas em 2010.

Olá, parabéns que tenha se interessado por fazer uma resenha. Gostei muito da forma que descreve ( me parece que você mora por aqui, nordeste. usou menino ao invés de criança ). “É importante frisar que este romance não se trata de uma aventura, mas, sim, de uma jornada” foi exatamente isso que senti quando li a historia, no momento que deixei minhas impressões fui bastantem critica, mas ainda assim, gosto muito do livro e estou ansiosa pela estreia do filme, em fevereiro de 2010. Ah, peguei o link, no skoob. No recado de uma amiga que temos em comum.
[...] “titãs” da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (A Estrada) e Thomas Pynchon, ganhador de dois National Book Awards (o equivalente literário norte-americano [...]