2009
09.19

The Shield Cover

A corrupção das forças da Lei é um tema recorrente na mídia – inclusive na do entretenimento – a ponto de existir um rótulo próprio para acomodar filmes do gênero: o thriller policial. Em 2001, esse mesmo gênero experimentou o seu apogeu com o premiado Dia de Treinamento, que resultou no segundo Oscar de Melhor Ator para o seu protagonista, Denzel Washington.

Coincidentemente, ou não, no ano seguinte, o (até então)  inexpressivo  canal à cabo Fox FX estreou a sua primeira produção original, The Shield, que visa a documentar a vida dos policiais de um distrito policial na cidade de Los Angels, num ambiente de crescentes tensões sociais, jogos políticos e corrupção.

O programa gravita em torno de Vic Mackey (Michael Chiklis), tira durão que adota o ditado escrever certo por linhas tortas como mantra, e que  lidera uma “tropa de elite”, a Strike Team, que atua em casos de alta periculosidade, em frequente atrito com o chefe da delegacia, David Aceveda (Benito Martinez), que, ciente dos podres de Vic, tenta a todo custo derrubá-lo.

Aceveda e Mackey

Aceveda e Mackey

A série também conta com uma gama de outros núcleos dramáticos que visam a retratar  os demais ângulos da força policial – desde a investigação de homicídios (o aspecto “procedural” do programa) ao casos de rua – oferecendo, assim, um retrato abrangente das diferentes atribuições da polícia e como elas se relacionam entre si.

Em produções do gênero, é de praxe que haja um certo maniqueísmo envolvido; personagens corruptos são – via de regra – retratados sob uma ótica “vilanesca”, contra-balanceados por indivíduos altruístas que se recusam a se conformar com a corrupção do sistema, legítmos salvaguardas da moralidade, resultando num dualismo que empalidece o tema por não compactuar com a realidade – que tende a ser bem mais complexa.

The Shield, todavia, é um show calcado no realismo, onde cada personagem é construído sobre camadas de contradições e hipocrisia, com virtudes e defeitos que muitas vezes interajem entre si, trocando de papéis, denunciando o caminho pedegroso que o roteiro seguiu tomar – o da realidade – e oferecendo farto material para discussão e reflexão, haja vista que a série não se atém a temas tipicamente policiais, enveredando por outras matérias igualmente espinhosas .

Aceveda, por exemplo, é introduzido como a antítese de Mackey, um sujeito que acredita no sistema, nas noções de Igualdade e Justiça, e que se enoja pela subersividade de Vic para com o sistema; entretanto, ele se mostra mais do que disposto, em numerosas ocasiões, a fazer vista grossa perante as atitudes de Vic, quando isso lhe é conveniente, seja para farrancar de um pedófiloa localização de sua última vítima, seja para derrubar inimigos políticos que armaram para cima dele.

O Strike Team

O Strike Team

Em seu âmago, como bem explicou Alan Sepinwall no seu review para o series finale, “o que policiais fazem com os seus distintivos – e o que nós podemos querer que eles façam,  independentemente se admitimos para nós mesmos ou não – sempre foi a questão fundamental de The Shield”. O seriado se propõe a desafiar a moral do espectador, a pôr em xeque suas noções de certo e errado e a questioná-lo quanto a seus princípios.

Ao longo das suas sete temporadas – totalizando 88 episódios – nomes célebres marcaram presença em papéis recorrentes, como Forest Whitaker (Oscar de Melhor Ator por O Último Rei da Escócia), Anthony Anderson (protagonista de K-Ville, coadjuvante em filmes como Os Infiltrados e Transformers), Glenn Close (indicada cinco vezes ao Oscar, ganhadora de dois Emmys e dois Globos de Ouro) e Franka Potente (protagonista e co-protagonista dos aclamados Corra, Lola, Corra e A Identidade Bourne, respectivamente).

Em sua existência, o show foi indicado a nada menos que cinco Emmys, cinco TCAs Awards (Television Critics Association) e três Globos de Ouro, além de ter sido sine qua non para o estabelecimento da marca da emissora FX junto ao público, propiciando-lhe as condições necessárias para expandir seu escopo de ação.

É possível encontrar a série completa, em DVD, no Brasil, lançada pela Sony Pictures, em widescreen (em direto contraponto com os episódios disponíveis na rede, a imensa maioria em fullscreen), pelo salgadísismo preço médio de R$100,00 por temporada (acho que vou assaltar um trem armênio…).

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