2009
09.04

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There is a very thin line between an artist and a serial killer.

Desde The Sky Moves Sideways o grupo de rock Porcupine Tree vem se estabelecendo como um dos nomes mais promissores da música contemporânea. A cada release, a banda refinou seu som, aprimorou suas letras e viu seus integrantes se aperfeiçoarem enquanto músicos, o que se traduziu numa nova direção musical a partir de Stupid Dream (1999), em que o esmero técnico de seus compositores resultou num álbum com inegável apelo pop, porém tão complexo e rico em texturas musicais quanto seus trabalhos antecessores, apenas mais condensado e conciso -- inaugurando a chamada segunda fase da banda.

Todavia, o álbum que simboliza essa era não se trata nem do Stupid Dream nem do Lightbulb Sun (2000), e, sim, de In Absentia (2002), em que a maturidade musical conquistada pelo grupo se refletiu na incorporação definitiva de influências diversas que se manifestavam com timidez, mas que, hoje, são indissociáveis ao som da banda.

In Absentia foi composto num período de mudanças: Chris Maitland, baterista do grupo desde o final de 1993, anunciara a sua saída da banda em Fevereiro de 2002, sendo reposto por Gavin Harrinson, a primeira troca de integrantes a ocorrer na história da banda; simultaneamente, o próprio grupo havia a pouco migrado para uma gravadora major; e Steven Wilson, líder/vocalista/guitarrista/pianista/etc da banda, reapaixonara-se pelo heavy metal, impulsionado pelo som de bandas como Opeth e Meshuggah, o que mudou drasticamente a sua forma de compor música.

In absentia is Latin for “in the absence”. In legal use it usually pertains to a defendant’s right to be present in court proceedings in a criminal trial.

Embora todos os álbuns do Porcupine Tree sejam marcados por uma certa coerência de temas -- Stupid Dream, por exemplo, é um álbum introspectivo a respeito de desilusões, tanto a um nível amoroso (“Shave Called Shiver”), quanto social (“Don’t Hate Me”) e político (“A Smart Kid”) -- In Absentia é o primeiro a ser genuinamente conceitual, em que as faixas são tematica e musicalmente conectadas -- nesse caso, a respeito do assassino em série Fred West.

Entre 1967 e 1987, West,  com o suporte de sua segunda esposa, Rosemary Letts, sequestrou, estuprou e matou cerca de dez garotas entre 15 e 30 anos, além de ter espancado até a morte duas de suas filhas do primeiro casamento e abusado sexualmente as do segundo; os restos mortais de suas vítimas foram encontrados enterrados no seu quintal. West suicidou-se na cadeia e Letts foi condenada à prisão perpétua.

Fred_West_01

O tema é abordado de forma explícita em faixas como Blackest Eyes (a qual narra a infância e os primeiros passos de West como um assassino), The Creator Has a Mastertape (que detalha características de seus homicídios, como o hábito de guardar trófeus e o de amarrar suas vítimas) e Strip the Soul (em que a sua dinâmica familiar  -- assim como aspectos de sua personalidade perturbada -- é evidenciada), e sutilmente em Trains (sobre a sua infância, num ângulo nostálgico) e Heartattack in a LayBy (seu último vislumbre de sanidade, atordoado pelo peso de seus atos e pelo “fervor” que o faz seguir adiante).

The Sound of Muzak, a quarta faixa, é a única que foge à regra, tratando-se de um desabafo do próprio Wilson a respeito da direção que a indústria musical vem tomando. Seu nome alude à gravadora Muzak, que, em meados do século passado, monopolizou o mercado de “músicas de elevador”, sendo, desde então, usada como um termo pejorativo para classificar músicas simplórias e repetitivas.

Complementando as letras, o instrumental é um dos mais pesados na discografia da banda, flertando frequentemente com o heavy metal, dotado de melodias lascinantes e riffs intensos, porém ainda calcado no rock progressivo que sedimentou a fama do grupo em primeiro lugar, como em Lips of Ashes, em que o mellotron guia a melodia do começo ao fim, ou Weding Nails, que remete à grandiosidade técnica do Dream Theater à época do Scenes From a Memory, quando suas músicas instrumentais tinham uma ambição mais nobre do que a de satisfazer seus próprios egos.

Em suma, In Absentia é um dos melhores álbuns dessa década, representando uma banda no ápice de sua criatividade e a esbanjar talento, que transcende rótulos e se firma no âmago do ouvinte, provocando reações ambivalentes e plurais. Um trabalho fascinante e arrojado que promete ser considerado um clássico do seu tempo no futuro.

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3 comments so far

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  1. não curto mt a banda… mas, me pareceu bem legal. \\o

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  2. O que falar? É meu álbum favoritos deles. Posso ouvir Trains e The Sound Of Muzak durante dias a fio e nunca me canso.

    É intenso.

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  3. Melhor resenha desse disco, que por enquanto é o meu preferido do PT. Mas acho que a perspectiva do disco vai além de reletar o serial killer, mas a gente pode expandir a ideia do serial killer em cada, de forma mais humana, mais próxima possível a nós, pessoas ‘sãs’.

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