2009
12.05

Longo HalloO Longo Dia das Bruxas, maxissérie escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale, dois pesos-pesados da indústria dos quadrinhos, é uma das histórias mais importagens no universo do Homem-Morcego, responsável por definir o canon da transição de Harvey Dent no vilão Duas-Caras, além de certos elementos de sua premissa terem inspirado os irmãos Nolan em O Cavaleiro das Trevas – a ponto dos dois escreverem um prefácio para um encadernado de luxo da história.

A ambientação é o que chama logo a atenção e é, sem dúvida, o grande destaque da obra:  Sale veste Gotham com uma roupagem noir, fazendo bom uso de sombras e de uma paleta de cores rica em contrastes,  enquanto Loeb pinta um competente retrato da máfia local, claramente inspirado no trabalho de cineastas como Coppola e Scorcese, que encontra-se acuada pela onda crescente de super-vilões a assolarem a cidade desde o surgimento do Cavaleiro das Trevas – um dos temas emprestados pelos Nolan para seus filmes.

Infelizmente, contudo, Loeb não abre mão do recurso do “whodunit?“, elemento onipresente em sua carreira. Aqui, o mistério gira em torno de um assassino conhecido como Feriado, que, como o próprio nome já denúncia, ataca apenas em feriados, sempre mirando em membros da família de mafiosos que controlam submundo de Gotham.

A questão é bem conduzida até o final, quando Loeb, na necessidade de chocar o leitor, vacila feio na revelação da identidade(s) do personagem, cuja alegada ambiguidade é uma mera desculpa para justificar os muitos furos que se evidenciam numa análise mais atenta.

Na edição definitiva publicado por aqui pela Panini – cujo tratamento arrojado a editora só viria a reproduzir com Watchmen – há, entre os extras, o esboço do roteiro original escrito por Loeb que passou por acentuadas mudanças, a principal deles pertinente ao tal do Feriado: originalmente, ele seria o assassino conhecido como Calendário, um obscuro nome da galeria de vilões do Batman. Na versão final do roteiro ele foi rebaixado a um coadjuvante a quem o morcegão busca assistência para lidar com o Feriado.

No frigir dos ovos, trata-se de uma história com méritos óbvios e inegáveis – tal como ser a pioneira em retratar Dent como um promotor cada vez mais amargurado com um sistema corrupto e ineficiente – mas que se mostra frustrantemente insatisfatória no fim. Sua relevância história é inegável, mas eu não a poria de jeito algum no roll das melhores histórias protagonizados pelo Cavaleiro de Gotham. E tampouco pagaria os R$95 cobrados por ela.

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2009
11.28

homem-comum Philip Milton Roth é considerado um dos últimos “titãs” da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (A Estrada) e Thomas Pynchon, ganhador de dois National Book Awards (o equivalente literário norte-americano ao Oscar), dois National Book Critics Circle Awards e um Pulitzer – fora incontáveis outros prêmios.

Entre diversos trabalhos do autor vistos como obras-primas, meu primeiro contato com a ficção de Roth se deu por meio de um dos seus romances “menores”, de publicação recente: Homem Comum (ou Everyman, no original), alusão a um poema medieval datado do século quinze, de autoria desconhecida.

O romance se inicia de maneira intrigante, partindo pelo fim da narrativa: o enterro do protagonista (cujo nome nunca ficamos a par), acompanhado pelo discurso de uma gama de personagens que o leitor virá a se familiarizar com o passar do tempo, cada  um dotado de sua própria visão do falecido: seja de incompreensão (seu irmão, Howie), de estima (sua filha, Nancy), de amor (sua segunda ex-esposa, Phoebe) ou de raiva (seus dois filhos do primeiro casamento).

A narrativa, então, retrocede no tempo para a infância do sujeito e segue, a partir dai, mais ou menos linearmente. Assistimos ao apogeu profissional e emocional do personagem e a seu subsequente declínio, numa narrativa que nunca falha em remeter ao seu tema principal: a Morte, e como nós a encaramos e nos relacionamos com ela, sintetizado pelo Homem Comum, cujas virtudes, defeitos, vícios e ideais encontram ressonância em cada um de nós em menor ou maior grau.

O primeiro contato que Ele tem com a Morte é na sua tenra infância, quando um cadáver aparece na praia que ele e a família costumavam frequenter; eles se reencontram pouco tempo depois, na forma de um companheiro hospitalar, um garoto tal como ele, cuja existência se mostrou breve demais.

De início, não adormeceu porque ficou esperando que o outro menino morresse, e depois porque não conseguia parar de pensar no corpo do afogado que o mar tinha largado na praia no último verão.

Anos depois, no auge da sua vida adulta – publicitário bem-sucedido, garanhão e saudável – esse tipo de pensamento ainda o atormenta.  A mortalidade se tornou um estigma que ele passou a carregar, onipresente, pairando sobre todos os aspectos da sua vida.  Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranquilo e objetivo lhe dizia que ainda tinha muita vida sólida pela frente?, indaga Roth. Ironicamente, é a partir desse ponto que a sua saúde se deteriora a passos largos, exigindo intervenções médicas recorrentes.

Quando o Sujeito chega à reta final da sua vida – e o livro, por tabela, ao seu fim – ele se vê solitário, combalido e isolado da sua família, jazendo amargamente num retiro para velhos, tendo como único passatempo a pintura, atividade essa que não tarda a perder seu encanto.

Suas tentativas em remediar essa situação são inexoravelmente frustadas: as moças com quem ele flerta não lhe dão atenção, seus poucos amigos estão ou mortos, ou em vias para tanto, e ele não é bem-recebido em nenhuma das duas famílias que ele ajudou a construir, exceptuando-se pela sua filha mais nova, que nutre por ele um carinho admitidamente injustificado.

Havia cortado suas raízes justamente no momento em que a idade exigia que ele estivesse tão arraigado quanto no tempo em que dirigia o departamento de criação da agência publicitária. Ele sempre se sentira revigorado pela estabilidade, nunca pela imobilidade. E sua vida atual era pura estagnação. Agora lhe faltavam todas as formas de alívio, vivia uma esterilidade disfarçada de consolo, e  não era possível voltar atrás.

Trata-se, em suma, de um romance bastante sombrio que registra os piores aspectos do envelhecimento – a fragilidade,  o isolamento, a impotência – na figura de um indivíduo cuja vida foi marcada pelo temor do produto final da soma desses fatores e que vem a constatar, muito para a sua infelicidade, que simplesmente seguiu a estrada errada na vida.

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2009
11.14

800px-lasse_in_stockholm_ Artista, fotógrafo, designer gráfico e cineasta, Hoile é reconhecido pelo seu estilo ao mesmo tempo vintage e moderno, assim como pela intensidade emocional que imprime aos seus trabalhos, os quais muitas vezes retratam situações de melancolia, solidão e/ou desamparo, dotados de subtextos críticos que remetem à sua própria visão de mundo.

Hoile é um colaborador frequente de Steven Wilson, incumbido de todas as capas e artes internas da banda de rock progressivo Porcupine Tree, um dos vários projetos musicais de Wilson, desde o In Absentia e responsável por dirigir o primeiro registro ao vivo do grupo para o DVD Arriving Somewhere… Ele também dirigiu os videoclipes para Fear of a Blank Planet, Normal e Time Flies (clique nos links para assisti-los)

Lasse contribuiu ostensivamente para o primeiro trabalho-solo de Wilson, tendo dirigido o videoclipe para Harmony Korine, provido todo o artwork interno para o livro de 120 páginas que acompanha a edição de luxo do CD e ainda filmado o documentário tematicamente ligado ao álbum, a ser lançado no segundo semestre.

Ele também emprestou seu talento para o grupo de death metal progressivo Opeth ao dirigir um par de vídeos musicais para as canções Porcelain Heart e Burden.

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2009
11.08

theroadO fim do mundo é um tema que sempre nos fascinou, sendo uma presença recorrente no nosso imaginário desde tempos remotos, manifestando-se  tanto na religião quanto nas Artes. As causas se moldam conforme o contexto da época: na Idade Média teve um caráter religioso, justificando-se por meio do Apocalipse; em tempos modernos, em particular durante meados do século XX, passou a ser uma hecatombe nuclear; e, em tempos contemporâneos, na destruição irreparável do meio-ambiente.

Em vista disso, explorar referido tema de forma original e interessante representa um desafio enorme, visto que o mesmo já foi trabalhado de incontáveis maneiras no decurso da história -- é necessário, portanto, um artista com bastante desenvoltura e, acima de tudo, talento.

E McCarthy tem talento para dar e vender.

Em A Estrada (Alfaguara, 234 páginas; R$ 36,90), acompanhamos as travessias de um pai e seu menino -- identificados exatamente dessa forma pelo autor -- numa América pós-apocalíptica, vítima de uma catástrofe que -- a fim de conferir um caráter atemporal à história -  nunca é especificada. Agarrando-se a um último fiapo de esperança, eles cruzam os Estados Unidos em direção ao mar, na esperança de encontrarem algum conforto, seguindo pela estrada do título.

Naturalmente, no decorrer da narrativa, o Pai e o Menino cruzam caminhos com outros sobreviventes, embora em termos, via de regra, pouco amistosos. O colapso da sociedade impeliu os poucos sobreviventes a regressarem a um estado neolítico, vivendo em tribos e caçando em bandos -- geralmente, seres da própria espécie. O canibalismo, em virtude da escassez de comida, tornou-se uma necessidade.

Há exceções, evidentemente; duas deles sendo o  par de protagonistas: o menino, por estar sempre sob os cuidados do Pai, ainda retém certa inocência; e o dito cujo, que cultiva a humanidade que ainda lhe resta em prol do filho, perserverando contra todas as adversidades -- doença, fome, cansaço -- para resguardá-lo.

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É importante frisar que este romance não se trata de uma aventura, mas, sim, de uma jornada: a ênfase é no cotidiano dos personagens e todas as dificuldades atreladas a ela. McCarthy foi, neste ponto, extremamente minucioso, explorando todas os empecilhos e problemas que dois indivíduos nessa situação possivelmente teriam que lidar, como a busca por alimento, abrigo, roupas etc. Quase um manual de sobrevivência. Embora momentos mais frenéticos existam, eles são pontuais, dispersos ao longo da narrativa.

A linguagem concisa, seca e direta de McCarthy encontra, aqui, o seu par temático perfeito. As descrições das paisagens naturais -- cinzentas e mortas -- e do tecido urbano -- necrosado e pútrido -- incitam no leitor um desconforto perene, um senso gradativamente maior de opressão -- como se esses cenários estivessem se construíndo ao seu redor, propiciando acesso à própria aflição dos personagens.

O romance foi reconhecido como uma obra-prima contemporânea, a ponto de ser definido, pela crítica, como a Obra Definitiva na literatura pós-apocalíptica. Em 2007 venceu o Pulitzer Prize for Fiction. O livro também foi um dos finalistas do National Book Awards em 2006.

Uma adaptação cinematográfica, dirigida por John Hillcoat (do cult A Proposta) e estrelado por Viggo Mortensen (Pai) e pelo desconhecido Kodi Smit-McPhee (Menino), estreará em Novembro deste ano, e é vista como uma concorrente de peso para os óscares; no Brasil, apenas em 2010.

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2009
10.30

whiteout00

Estação Mcmurdo, Mactown. MacLamaçal. Ganhou esse nome por causa do Estreito de McMurdo, que, por sua vez, foi batizado em homenagem ao Tenente Archibald McMurdo, do HMS Terror, em 1841.

[...]

A Antárctida tem aproximadamente 14.2 quilômetros quadrados, sem contar as ilhas [...] Rocha coberta com 30 milhões de km³ de gelo. Este é o continente mais elevado, com média de 2.320 metros acima do nível do mar.

[...]

A temperatura mais baixa já registrada na Terra foi marcada pelos russos na Estação Vostok [...] 89,6ºC negativos, em 21 de Julho de 1983. Frio desse tipo mata. O vapor da água nos pulmões congela instantaneamente, estoura as células… como se você estivesse explodindo por dentro.

Carrie Stetko é uma agente federal americana exilada numa inóspita base na Antárctica em virtude um erro que cometeu no passado. A personagem é uma típica badass: boca suja, impulsiva, audaciosa – como as figuras femininas nas séries de Joss Whedon, ou a Sarah Connor do segundo Exterminador do Futuro -, do gênero poucos amigos.

Em Morte no Gelo acompanhamos a agente enquanto ela investiga um homicídio ocorrido às vésperas do rigoroso inverso antárctico, época na qual mais de 90% do staff operacional é mandado de volta para casa. A trama gradualmente se complica, com um rastro crescente de vítimas e um  interesse incomum da inteligência inglesa pelo caso.

Em Ponto de Fusão, um ataque acobertado a uma base russa gera inquietações no governo americano, o qual acredita que a base servia como depósito para armas nucleares e biológicas. A agente Stentko é convencida a investigar o caso mediante a promessa de uma transferência para fora do contigente gelado, uma vez o caso encerrado.

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Ambas as HQs foram escritas por Greg Rucka, nome estabelecido dentro dos quadrinhos underground, que demonstrar um ótimo feeling para o suspense, construíndo gradativamente a tensão a partir de uma simples premissa que se complica aos poucos, mas jamais se perdendo ou rodando em círculos, encaixando organicamente à narrativa momentos mais introspectivos, intercalados com a ação; além disso, seu zelo histórico é notável, manifestando-se por meio de curiosidades divulgadas ao longo da narrativa – algumas ilustrando a introdução deste texto – que têm, como fim, imprimir uma credibilidade maior à história.

miolo_WHITEOUT_02_OK:WHITEOUT.qxdSteve Lieber as ilustrou. Seu traço é sóbrio e diversificado, capaz de transitar com facilidade entre painéis mais ricos em detalhes e outros minimalistas em sua essência, incorporando variadas técnicas de desenho, de pincel e acabamento a fim de representar, com a maior fidelidade possível, as várias facetas que o gelo assume nos círculos polares. Seu estilo casa perfeitamente com o de Rucka, traduzindo-se numa narrativa fluida e consistente.

Morte no Gelo foi indicada a três Eisner Awards em 1999, para Melhor Série Limitada, Melhor Escritor e Melhor Desenhista; Ponto de Fusão, no ano seguinte, foi indicada e vencedora do Eisner de Melhor Série Limitada. Um terceiro volume fora prometido para o fim deste ano, mas provavelmente terá seu lançamento adiado para 2010.

No Brasil, ambos os títulos foram publicados pela Devir. Um filme baseado em Morte no Gelo foi filmado em 2007, mas só aportou recentemente nos cinemas, com um atraso inexplicável de dois anos (!), sob o título Terror na Antárctida. Carrie Stetko é interpretada por Kate Beckinsale (cinessérie Underworld).

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