2010
07.30

Philip K. Dick, além de um dos melhores escritores que a ficção-científica já teve, foi um visionário, alguém capaz de antever muitas das chagas que assolariam o mundo contemporâneo. Suas obras ganham ressonância com o passar do tempo, pois os temas com os quais lidam se revelam cada vez mais caros a nós – como é o caso deste Os Três Estigmas de Palmer Eldritch.

Num futuro não-tão-distante, a Terra se tornou um planeta semi-inóspito, afligido por um superaquecimento que tornou a sua habitação possível apenas em ambientes fechados e refrigerados (i.e condaptos), extinguiu boa parte da vida animal e tornou os pólos em resorts para os mais abastados.

A solução encontrada pela ONU – que emergiu como a força política mais apta para lidar com a situação, sobrepujando soberanias nacionais – para lidar com o contigente sem condições de arcar com condaptos apropriados foi conduzir exílios (forçados) para outros planetas do sistema solar, em que as condições de vida são tão ou mais degradantes.

Nesse contexto, a Ambientes P.I prospera. A empresa é especializada na fabricação de brinquedos que, aliados a uma droga alucinógena chamada Can-D, também produzida – clandestinamente, mas com autorização tática da ONU – por ela, permite aos seus usuários imergirem num mundo ilusório, fantástico e compartilhado.

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2010
07.25

Escrito em 1966 e publicado três anos depois, esta obra talvez figure entre as mais acessíveis do escritor Philip K. Dick. Suas divagações teológicas e existencialistas habituais ganham forma numa narrativa que privilegia o suspense, descrita pelo escritor e crítico literário Lev Grossman como uma história de horror profundamente inquietante, um pesadelo do qual você nunca terá certeza se acordou ou não. Em 2005, foi eleito pela a revista Times como um dos cem melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923.

No universo de Ubik, existem dois tipos de indivíduos extraordinários: aqueles dotados de poderes paranormais, como telepatas e precogs, cujos talentos são usados para fins de espionagem e sabotagem industrial; e os inerciais, que detectam e inibem tais talentos, contanto que correspondentes (i.e um anti-telepata só afeta as habilidades de um telepata, não de um precog), empregados pelas organizações de prudência, que oferecem segurança anti-psis aos seus clientes.

Nesse contexto, a Runciter & Associados, a maior organização de prudência do ramo, é contratada por um rico magnata que afirma que seu empreendimento sigiloso na Lua foi infiltrado por inúmeros psíquicos – o que explicaria o sumiço abrupto de muitos desses indivíduos em tempos recentes, impelindo Glen Runciter a reunir os melhores de sua equipe e a liderar ele mesmo a missão.

Tal missão, todavia, era uma armadilha. Runciter acaba morto, enquanto que seus onze subalternos sobrevivem. Doravante, o romance envereda pelo território da metafísica dickiniana: os sobreviventes passam a experimentar regressões temporais.

Objetos, construções, utensílios, vestiário, enfim, a realidade como um todo retrocede no tempo. Televisores se tornam rádios, aviões em biplanares, alimentos novos em produtos há muito estragados. E somente eles observam/experimentam tais fenômenos (os quais não ocorrem simultaneamente, nem mesmo entre eles).

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2010
07.19

A ficção-científica – em grande parte devido ao êxito mercadológico de Star Wars - é geralmente associada a grandiosas batalhas espaciais, viagens temporais e aventuras siderais, mas se trata de uma generalização falha por neglicenciar o aspecto humano e a critica social subjacente às histórias que caracterizam as melhores produções do gênero, que nada têm de escapistas.

Ghost in the Shell (“O Fantasma do Futuro”, no Brasil), a trilogia do Sprawl, os livros de Philip K. Dick e os filmes de Terry Gilliam são exemplos cabais. Neles a ambientação futurista funciona como pretexto para uma abordagem social e crítica; os adornos tecnológicos, artifícios narrativos que visam a realçar certos aspectos ou facilitar a abordagem de certos temas.

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2010
07.11

O Complexo de Portnoy foi a minha terceira incursão na bibliografia de Roth, a primeira num dos seus romances celebrados (tanto Indignação quanto Homem Comum são títulos menores, coadjuvantes na sua bibliografia), e, sem dúvida, a melhor. Neste romance – que lançou o autor à fama literária – o leitor assume a perspectiva do interlocutor, o psiquiatra de Alexander Portnoy, que, no divã, descreve os momentos mais marcantes da sua vida, transitando entre situações de sua infância, adolescência e vida adulta, expondo seus traumas e descortinando as causas de suas neuroses.

Mas, você deve estar se perguntando, quem é Alexander Portnoy?

Alexander Portnoy foi um estudante exemplar, de inteligência ímpar e obediência familiar invejável, que se tornou um cidadão honorável, um intelectual bem versado e um político que luta por causas nobres, embuído de renome e status. No entanto, a despeito de tudo isso, ele leva uma vida miserável, refém de emoções como culpa, aflição e frustração. A razão de ser disso é revelada ao leitor antes da própria introdução ao personagem:

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2010
06.20

Alcest é um daqueles raros casos de reinvenções bem-sucedidas. A banda começou como um projeto solo de Stéphane Paut, a.k.a Neige, que evoluiu para um trio com as inclusões de Arguth (baixo) e Hegnor (guitarra), ambos velhos conhecidos do Neige da época do Peste Noire, na qual ele tocou baixo por quatro anos.

Com essa formação, lançaram um EP (Tristesse Hivernale), caracterizado pela produção crua e pelo som brutal, características típicas da cena black metal francesa. Logo em seguida, contudo, a banda voltou a ser um projeto solo do Neige, que optou por drasticamente reformular o seu som.

Quatro anos depois do malfadado EP, Alcest lança  Le Secret, consistindo de duas faixas antagônicas: a homônima, com um clima relaxante, uma ambientação nostálgica e vocais que lembram um pouco os de Jónsi, do Sigur Rós; e Elevation, que não se acharia deslocada num álbum tradicional de black metal.

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2009
12.05

Longo HalloO Longo Dia das Bruxas, maxissérie escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale, dois pesos-pesados da indústria dos quadrinhos, é uma das histórias mais importagens no universo do Homem-Morcego, responsável por definir o canon da transição de Harvey Dent no vilão Duas-Caras, além de certos elementos de sua premissa terem inspirado os irmãos Nolan em O Cavaleiro das Trevas – a ponto dos dois escreverem um prefácio para um encadernado de luxo da história.

A ambientação é o que chama logo a atenção e é, sem dúvida, o grande destaque da obra:  Sale veste Gotham com uma roupagem noir, fazendo bom uso de sombras e de uma paleta de cores rica em contrastes,  enquanto Loeb pinta um competente retrato da máfia local, claramente inspirado no trabalho de cineastas como Coppola e Scorcese, que encontra-se acuada pela onda crescente de super-vilões a assolarem a cidade desde o surgimento do Cavaleiro das Trevas – um dos temas emprestados pelos Nolan para seus filmes.

Infelizmente, contudo, Loeb não abre mão do recurso do “whodunit?“, elemento onipresente em sua carreira. Aqui, o mistério gira em torno de um assassino conhecido como Feriado, que, como o próprio nome já denúncia, ataca apenas em feriados, sempre mirando em membros da família de mafiosos que controlam submundo de Gotham.

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2009
11.28

homem-comum Philip Milton Roth é considerado um dos últimos “titãs” da literatura norte-americana, lado a lado com nomes como Cormac McCarthy (A Estrada) e Thomas Pynchon, ganhador de dois National Book Awards (o equivalente literário norte-americano ao Oscar), dois National Book Critics Circle Awards e um Pulitzer – fora incontáveis outros prêmios.

Entre diversos trabalhos do autor vistos como obras-primas, meu primeiro contato com a ficção de Roth se deu por meio de um dos seus romances “menores”, de publicação recente: Homem Comum (ou Everyman, no original), alusão a um poema medieval datado do século quinze, de autoria desconhecida.

O romance se inicia de maneira intrigante, partindo pelo fim da narrativa: o enterro do protagonista (cujo nome nunca ficamos a par), acompanhado pelo discurso de uma gama de personagens que o leitor virá a se familiarizar com o passar do tempo, cada  um dotado de sua própria visão do falecido: seja de incompreensão (seu irmão, Howie), de estima (sua filha, Nancy), de amor (sua segunda ex-esposa, Phoebe) ou de raiva (seus dois filhos do primeiro casamento).

A narrativa, então, retrocede no tempo para a infância do sujeito e segue, a partir dai, mais ou menos linearmente. Assistimos ao apogeu profissional e emocional do personagem e a seu subsequente declínio, numa narrativa que nunca falha em remeter ao seu tema principal: a Morte, e como nós a encaramos e nos relacionamos com ela, sintetizado pelo Homem Comum, cujas virtudes, defeitos, vícios e ideais encontram ressonância em cada um de nós em menor ou maior grau.

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2009
11.14

800px-lasse_in_stockholm_ Artista, fotógrafo, designer gráfico e cineasta, Hoile é reconhecido pelo seu estilo ao mesmo tempo vintage e moderno, assim como pela intensidade emocional que imprime aos seus trabalhos, os quais muitas vezes retratam situações de melancolia, solidão e/ou desamparo, dotados de subtextos críticos que remetem à sua própria visão de mundo.

Hoile é um colaborador frequente de Steven Wilson, incumbido de todas as capas e artes internas da banda de rock progressivo Porcupine Tree, um dos vários projetos musicais de Wilson, desde o In Absentia e responsável por dirigir o primeiro registro ao vivo do grupo para o DVD Arriving Somewhere… Ele também dirigiu os videoclipes para Fear of a Blank Planet, Normal e Time Flies (clique nos links para assisti-los)

Lasse contribuiu ostensivamente para o primeiro trabalho-solo de Wilson, tendo dirigido o videoclipe para Harmony Korine, provido todo o artwork interno para o livro de 120 páginas que acompanha a edição de luxo do CD e ainda filmado o documentário tematicamente ligado ao álbum, a ser lançado no segundo semestre.

Ele também emprestou seu talento para o grupo de death metal progressivo Opeth ao dirigir um par de vídeos musicais para as canções Porcelain Heart e Burden.

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2009
11.08

theroadO fim do mundo é um tema que sempre nos fascinou, sendo uma presença recorrente no nosso imaginário desde tempos remotos, manifestando-se  tanto na religião quanto nas Artes. As causas se moldam conforme o contexto da época: na Idade Média teve um caráter religioso, justificando-se por meio do Apocalipse; em tempos modernos, em particular durante meados do século XX, passou a ser uma hecatombe nuclear; e, em tempos contemporâneos, na destruição irreparável do meio-ambiente.

Em vista disso, explorar referido tema de forma original e interessante representa um desafio enorme, visto que o mesmo já foi trabalhado de incontáveis maneiras no decurso da história – é necessário, portanto, um artista com bastante desenvoltura e, acima de tudo, talento.

E McCarthy tem talento para dar e vender.

Em A Estrada (Alfaguara, 234 páginas; R$ 36,90), acompanhamos as travessias de um pai e seu menino – identificados exatamente dessa forma pelo autor – numa América pós-apocalíptica, vítima de uma catástrofe que – a fim de conferir um caráter atemporal à história -  nunca é especificada. Agarrando-se a um último fiapo de esperança, eles cruzam os Estados Unidos em direção ao mar, na esperança de encontrarem algum conforto, seguindo pela estrada do título.

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2009
10.30

whiteout00

Estação Mcmurdo, Mactown. MacLamaçal. Ganhou esse nome por causa do Estreito de McMurdo, que, por sua vez, foi batizado em homenagem ao Tenente Archibald McMurdo, do HMS Terror, em 1841.

[...]

A Antárctida tem aproximadamente 14.2 quilômetros quadrados, sem contar as ilhas [...] Rocha coberta com 30 milhões de km³ de gelo. Este é o continente mais elevado, com média de 2.320 metros acima do nível do mar.

[...]

A temperatura mais baixa já registrada na Terra foi marcada pelos russos na Estação Vostok [...] 89,6ºC negativos, em 21 de Julho de 1983. Frio desse tipo mata. O vapor da água nos pulmões congela instantaneamente, estoura as células… como se você estivesse explodindo por dentro.

Carrie Stetko é uma agente federal americana exilada numa inóspita base na Antárctica em virtude um erro que cometeu no passado. A personagem é uma típica badass: boca suja, impulsiva, audaciosa – como as figuras femininas nas séries de Joss Whedon, ou a Sarah Connor do segundo Exterminador do Futuro -, do gênero poucos amigos.

Em Morte no Gelo acompanhamos a agente enquanto ela investiga um homicídio ocorrido às vésperas do rigoroso inverso antárctico, época na qual mais de 90% do staff operacional é mandado de volta para casa. A trama gradualmente se complica, com um rastro crescente de vítimas e um  interesse incomum da inteligência inglesa pelo caso.

Em Ponto de Fusão, um ataque acobertado a uma base russa gera inquietações no governo americano, o qual acredita que a base servia como depósito para armas nucleares e biológicas. A agente Stentko é convencida a investigar o caso mediante a promessa de uma transferência para fora do contigente gelado, uma vez o caso encerrado.

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